Texto 1 de 2
1 Não faz muito tempo, fui assistir à ópera As Bodas
de Fígaro, de Mozart. Aproximando-se o final do
espetáculo, o personagem mais importante, Fígaro, faz um 4 comentário cruel a respeito das mulheres. Na montagem
que vi, o diretor de cena teve a ideia de acender as luzes da
plateia durante o canto de Fígaro, que saiu do palco e 7 dirigiu-se aos homens presentes.
Logo atrás de mim, uma senhora furiosa
levantou-se. Fez o sinal de “não” nas fuças do pobre cantor 10 e retirou-se protestando em voz alta. Pensei que ela poderia
ter prestado mais atenção. O tema nuclear de As Bodas de
Fígaro é atual: trata-se de desmascarar, denunciar e punir 13 um poderoso aristocrata que é violento predador sexual.
Aquela senhora furiosa revoltou-se antes do tempo
e não viu a condenação do conde brutal. Tal 16 suscetibilidade, decorrente da situação inferior em que, do
modo mais injusto, as mulheres são mantidas em nossas
sociedades, é compreensível. Mas indignou-se cedo 19 demais.
Indignação: eis o problema. Nunca tive simpatia por
essa palavra. Pressupõe cólera e desprezo. Quando estamos 22 sozinhos, a indignação nos embriaga como se fosse uma
droga. Arrebata a alma, enfurece as vísceras, dilata os
pulmões e nos faz acreditar na veemência do nosso ódio. 25 Viramos heróis justiceiros diante de nós mesmos.
A solidão indignada faz grandes discursos interiores
contra aquilo que erigimos como inimigo. Serve para dar 28 boa consciência. É um prazer solitário. Exaltados,
arquitetamos vinganças e reparações. Depois, o balão
murcha, sobrando apenas nossa miserável impotência. 31 Ao se manifestar na presença de outra pessoa, ou de
duas, ou em um pequeno grupo, a indignação leva ao
descontrole. Nervosos, falamos alto e dizemos coisas que, 34 na calma, jamais pronunciaríamos. Porque não somos mais
nós que falamos, mas algo que está em nós e que ocupou
nosso corpo esvaziado de qualquer poder reflexivo: a 37 indignação.
Fonte: Jorge Coli. A indignação enfurece as vísceras e nos embriaga como se fosse droga. Internet: <www.folha.com.br> (com adaptações).
Texto 2 de 2
JUSTIFICATIVA - CERTO. O processo de industrialização por
substituição de importações baseava-se na reserva de mercado pela
proteção contra importações, e a ausência de concorrentes em tal
contexto resultou em preços maiores no mercado interno.
Entre 2001 e 2005, o grau de desigualdade de renda no Brasil declinou de forma acentuada e contínua, atingindo, em 2005, o nível mais baixo dos últimos 30 anos. O coeficiente de Gini declinou quase 5%, e a razão entre a renda dos 20% mais ricos e a dos 20% mais pobres, mais de 20%. Essa redução na desigualdade contribuiu para diminuir substancialmente a pobreza e melhorar as condições de vida da população mais carente, mesmo em um período de relativa estagnação da renda per capita.
R. P. de Barros et al. Desigualdade de renda no Brasil: uma análise
da queda recente. Brasília: IPEA, 2006, v. 1, p. 379 (com adaptações).
Considerando o texto precedente, julgue o item seguinte a respeito das desigualdades pessoais de renda e de riqueza no Brasil no presente século.
A expansão das políticas de transferências governamentais à parcela mais pobre da população contribuiu na redução da desigualdade de 2001 a 2005. JUSTIFICATIVA - CERTO. O próprio texto citado conclui, após análise de dados disponíveis em diversas fontes públicas: “Buscamos identificar e quantificar, com base em uma série de simulações contrafactuais, a contribuição dos determinantes imediatos dessa queda na desigualdade, como as transformações demográficas, a expansão das transferências governamentais e de outras fontes de renda não derivadas do trabalho e as mudanças ocorridas no mercado de trabalho, sejam aquelas decorrentes da expansão da ocupação, sejam de uma melhor distribuição da remuneração do trabalho entre os ocupados. (…) As estimativas obtidas mostraram que (…) dois [determinantes imediatos investigados] foram fundamentais para explicar a redução na desigualdade de renda per capita ocorrida entre 2001 e 2005: a renda não derivada do trabalho e a renda derivada do trabalho por trabalhador. A contribuição da renda não derivada do trabalho situou-se entre 42% e 48%, ao passo que a contribuição da renda derivada do trabalho por trabalhador situou-se entre 32% e 46%. A associação entre renda derivada do trabalho por adulto e renda não derivada do trabalho por adulto contribuiu adicionalmente com cerca de 10% para a queda na desigualdade.”