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“Cobrador usa intimidação como estratégia. Empresas de cobrança usam técnicas abusivas, como tornar pública a dívida.” (Cotidiano, 10.09.2001)
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Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes: “Aqui mora uma devedora inadimplente.”
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− Você não pode fazer isso comigo − protestou ela.
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− Claro que posso − replicou ele. − Você comprou, não pagou. Você é uma devedora inadimplente. E eu sou cobrador. Por di-versas vezes tentei lhe cobrar, você não pagou.
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− Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise...
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− Já sei − ironizou ele. − Você vai me dizer que por causa daquele ataque lá em Nova York seus negócios ficaram preju-dicados. Problema seu, ouviu? Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo.
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− Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta...
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− Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você, expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que na-da tinha a ver com o assunto. Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida.
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Neste momento começou a chuviscar.
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− Você vai se molhar − advertiu ela. − Vai acabar ficando doente.
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Ele riu, amargo:
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− E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve.
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− Posso lhe dar um guarda-chuva...
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− Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guarda-chuva.
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Ela agora estava irritada:
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− Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu marido, você mora aqui.
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− Sou seu marido − retrucou ele − e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e você, devedora. Eu a avisei: não compre essa geladeira, eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu. E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você cumprir sua obrigação.
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Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz.
Fonte: (Adaptado de: SCLIAR, Moacyr. **O imaginário cotidiano**. São Paulo: Global, 2002)
Em relação aos apelos da mulher, Aristides mostra-se