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[1] Nosso conhecimento não era de estudar em livros. [20] que era a nossa maneira de sair do enfado.
Era de pegar de apalpar de ouvir e de outros sentidos. A gente não gostava de explicar as imagens porque
Seria um saber primordial? explicar afasta as falas da imaginação.
Nossas palavras se ajuntavam uma na outra por amor A gente gostava dos sentidos desarticulados como a
[5] e não por sintaxe. conversa dos passarinhos no chão a comer pedaços de
A gente queria o arpejo. O canto. O gorjeio das palavras. [25] mosca.
Um dia tentamos até de fazer um cruzamento de árvores Certas visões não significavam nada mas eram passeios
com passarinhos verbais.
para obter gorjeios em nossas palavras. A gente sempre queria dar brasão às borboletas.
[10] Não obtivemos. A gente gostava bem das vadiações com as palavras do
Estamos esperando até hoje. [30] que das prisões gramaticais.
Mas bem ficamos sabendo que é também das percepções Quando o menino disse que queria passar para as
primárias que nascem arpejos e canções e gorjeios. palavras suas peraltagens até os caracóis apoiaram.
Porém naquela altura a gente gostava mais das palavras A gente se encostava na tarde como se a tarde fosse
[15] desbocadas. um poste.
Tipo assim: Eu queria pegar na bunda do vento. [35] A gente gostava das palavras quando elas perturbavam
O pai disse que vento não tem bunda. os sentidos normais da fala.
Pelo que ficamos frustrados. Esses meninos faziam parte do arrebol como
Mas o pai apoiava a nossa maneira de desver o mundo os passarinhos.
(BARROS, Manoel de. Menino do mato. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015)
“Um dia tentamos até de fazer um cruzamento de árvores / com passarinhos / para obter gorjeios em nossas palavras.” (versos 7, 8 e 9)
No contexto, o termo sublinhado expressa sentido de