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Canção para os fonemas da alegria
Thiago de Mello
Peço licença para algumas coisas. Primeiramente para desfraldar este canto de amor publicamente.
Sucede que só sei dizer amor quando reparto o ramo azul de estrelas que em meu peito floresce de menino.
Peço licença para soletrar, no alfabeto do sol pernambucano, a palavra ti-jo-lo, por exemplo,
e poder ver que dentro dela vivem paredes, aconchegos e janelas, e descobrir que todos os fonemas
são mágicos sinais que vão se abrindo constelação de girassóis gerando em círculos de amor que de repente estalam como flor no chão da casa.
Às vezes nem há casa: é só o chão. Mas sobre o chão quem reina agora é um homem diferente, que acaba de nascer:
porque unindo pedaços de palavras aos poucos vai unindo argila e orvalho, tristeza e pão, cambão e beija-flor,
e acaba por unir a própria vida no seu peito partida e repartida quando afinal descobre num clarão
que o mundo é seu também, que o seu trabalho não é a pena que paga por ser homem, mas um modo de amar — e de ajudar
o mundo a ser melhor. Peço licença para avisar que, ao gosto de Jesus, este homem renascido é um homem novo:
ele atravessa os campos espalhando a boa-nova, e chama os companheiros a pelejar no limpo, fronte a fronte,
contra o bicho de quatrocentos anos, mas cujo fel espesso não resiste a quarenta horas de total ternura.
Peço licença para terminar soletrando a canção de rebeldia que existe nos fonemas da alegria:
canção de amor geral que eu vi crescer nos olhos do homem que aprendeu a ler.
Fonte: Thiago de Mello. Faz escuro mas eu canto. São Paulo: Global Editora, 2017.
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Julgue os itens que se seguem, relativos à análise linguística do poema precedente.
No trecho, “quando afinal descobre num clarão / que o mundo é seu também, que o seu trabalho / não é a pena que paga por ser homem” (último verso da oitava e primeiro e segundo versos da nona estrofe), identificam-se tanto o processo de subordinação quanto o de coordenação entre orações.