Texto 1 de 1
1 Antigamente, se morria. 30 tinha coisas que tem que matar.
1907, digamos, aquilo sim A honra, a terra e o sangue
é que era morrer. mandou muita gente praquele lugar.
Morria gente todo dia, Que mais podia um velho fazer,
e morria com muito prazer, nos idos de 1916,
já que todo mundo sabia a não ser pegar pneumonia,
que o Juízo, afinal, viria, deixar tudo para os filhos
e todo mundo ia renascer. e virar fotografia?
Morria-se praticamente de tudo. Ninguém vivia pra sempre.
10 De doença, de parto, de tosse. Afinal, a vida é um upa.
E ainda se morria de amor, 40 Não deu pra ir mais além.
como se o amar morte fosse. Mas ninguém tem culpa.
Pra morrer, bastava um susto, Quem mandou não ser devoto
um lenço no vento, um suspiro e pronto, de Santo Inácio de Acapulco,
lá se ia nosso defunto Menino Jesus de Praga?
para a terra dos pés juntos. O diabo anda solto.
Dia de anos, casamento, batizado, Aqui se faz, aqui se paga.
morrer era um tipo de festa, Almoçou e fez a barba,
uma das coisas da vida, tomou banho e foi no vento.
20 como ser ou não ser convidado. Não tem o que reclamar.
O escândalo era de praxe. 50 Agora, vamos ao testamento.
Mas os danos eram pequenos. Hoje, a morte está difícil.
Descansou. Partiu. Deus o tenha. Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Sempre alguém tinha uma frase Agora, a morte tem limites.
que deixava aquilo mais ou menos. E, em caso de necessidade,
Tinha coisas que matavam na certa. a ciência da eternidade
Pepino com leite, vento encanado, inventou a criônica.
praga de velha e amor mal curado. Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.
Tinha coisas que tem que morrer, (LEMINSKI, Paulo. Toda poesia, 2013)
O eu lírico manifesta-se explicitamente no poema em: