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CEBRASPE · 2024 · Secretaria Municipal da Educação de Aracaju · Professor

Questão 67 – Língua Portuguesa – CEBRASPE 2024 – Secretaria Municipal da Educação de Aracaju (Professor)

Texto 1 de 2

Bertoleza, que havia já feito subir o jantar dos caixeiros, estava de cócoras, no chão, escamando peixe, para a ceia do seu homem, quando viu parar defronte dela aquele grupo sinistro. Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e um calafrio percorreu-lhe o corpo. Num relance de grande perigo compreendeu a situação; adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê perdido para sempre: adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para matá-la, restituía-a ao cativeiro. Seu primeiro impulso foi de fugir. Mal, porém, circunvagou os olhos em torno de si, procurando escapula, o senhor adiantou-se dela e segurou-lhe o ombro. — É esta! disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada a segui-los. — Prendam-na! É escrava minha! A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar. Os policiais, vendo que ela se não despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto e, antes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado. E depois embarcou para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue. João Romão fugira até ao canto mais escuro do armazém, tapando o rosto com as mãos. Nesse momento parava à porta da rua uma carruagem. Era uma comissão de abolicionistas que vinha, de casaca! trazer-lhe respeitosamente o diploma de sócio benemérito. Ele mandou que os conduzissem para a sala de visitas.

Fonte: Aluísio Azevedo. O cortiço. Brasília: Edições Câmara, 2019, p. 233 (com adaptações).

Texto 2 de 2

Graciliano Ramos: Falo somente com o que falo: com as mesmas vinte palavras

girando ao redor do sol que as limpa do que não é faca:

de toda uma crosta viscosa, resto de janta abaianada, que fica na lâmina e cega seu gosto da cicatriz clara.

(...)

Falo somente do que falo: do seco e de suas paisagens, Nordestes, debaixo de um sol ali do mais quente vinagre:

que reduz tudo ao espinhaço, cresta o simplesmente folhagem, folha prolixa, folharada, onde possa esconder-se a fraude.

(...)

Falo somente por quem falo: por quem existe nesses climas

condicionados pelo sol, pelo gavião e outras rapinas:

e onde estão os solos inertes de tantas condições caatinga

em que só cabe cultivar o que é sinônimo da míngua.

(...)

Falo somente para quem falo: quem padece sono de morto e precisa um despertador acre, como o sol sobre o olho:

que é quando o sol é estridente, a contrapelo, imperioso, e bate nas pálpebras como se bate numa porta a socos.

João Cabral de Melo Neto. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 311-312.

“Senti-me bastante perturbada com a necessidade de

passar para o papel aquilo que algumas pessoas que ‘habitavam’

a minha cabeça estavam querendo dizer-me. Então perguntei ao

Paim (o marido) se aquilo daria mesmo um conto, ou quem sabe

um romance. Ele apenas aconselhou-me a dar corpo ao texto,

mesmo que não fosse um romance.” Alina passou a escrever à

noite enquanto o marido dormia, pois não queria que lesse

absolutamente nada. Cinco meses depois de tê-lo concluído,

tratou de ir à confeitaria Colombo, em Copacabana; em uma

dessas oportunidades, deparou-se com Graciliano Ramos, a quem

confiou o manuscrito de Estrada da liberdade; porém, sua única

exigência era que ele dissesse se o que produziu era mesmo um

romance. Acertaram um reencontro para 15 dias mais tarde. Qual

foi sua surpresa ao ouvi-lo dizer: “Alina, é um romance, sim, e

dos bons, porém falta-lhe aprimorar a técnica.” Segundo a

romancista, naquele momento nasceu uma grande amizade entre

ambos, capaz de despertar ciúmes não apenas no mundo literário,

mas em alguns familiares e amigos. Iniciaram-se as aulas de

técnicas literárias na casa de Graciliano, de modo que ele se

tornou responsável pela correção e leitura dos seus dois romances

seguintes. Sua amizade, com aquele a quem chamou

carinhosamente de “Mestre Graça”, rompeu-se nove anos mais

tarde, por ocasião de sua morte.

Ana Maria Leal Cardoso. Alina Paim: uma romancista esquecida nos labirintos do tempo. In: Aletria,

maio-ago 2010, n. 2, v. 20, p.126-127 (com adaptações).

Poucas vezes terá visto o romance brasileiro uma estreia

tão segura de si quanto a de Francisco J. C. Dantas. O precedente,

ilustre, que logo acode a lembrança é obviamente o de

Graciliano Ramos com Caetés (1933). Tal como o ex-prefeito de

Palmeira dos Índios que se apresentou escritor já feito aos olhos

de seus primeiros leitores, este sergipano professor de Letras que,

além de ter cumprido a penitência de duas teses universitárias, só

publicara até agora contos e ensaios esparsos, é dono de uma

linguagem vigorosa, pessoal, rara de encontrar-se num romance

de estreia. Coivara da memória é outrossim, como Caetés, um

romance meio fora de moda. Melhor dizendo: providencialmente

fora de moda.

José Paulo Paes. No rescaldo do fogo morto: sobre a “Coivara da Memória”

de Francisco Dantas. In: Transleituras. São Paulo, Ática, 1995, p.46.

Julgue os itens a seguir, referentes à leitura dos fragmentos de

texto apresentados e ao contexto literário de sua produção.

No trecho de poema transcrito, a repetição da expressão “Falo somente” produz a coesão necessária à unidade do texto e ao movimento da poiesis, que se direciona do emissor ao receptor do texto poético, o que se evidencia pelo emprego dos segmentos “com o que”, “do que”, “por quem”, “para quem”.

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