Texto 1 de 2
Bertoleza, que havia já feito subir o jantar dos caixeiros, estava de cócoras, no chão, escamando peixe, para a ceia do seu homem, quando viu parar defronte dela aquele grupo sinistro. Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e um calafrio percorreu-lhe o corpo. Num relance de grande perigo compreendeu a situação; adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê perdido para sempre: adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para matá-la, restituía-a ao cativeiro. Seu primeiro impulso foi de fugir. Mal, porém, circunvagou os olhos em torno de si, procurando escapula, o senhor adiantou-se dela e segurou-lhe o ombro. — É esta! disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada a segui-los. — Prendam-na! É escrava minha! A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar. Os policiais, vendo que ela se não despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto e, antes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado. E depois embarcou para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue. João Romão fugira até ao canto mais escuro do armazém, tapando o rosto com as mãos. Nesse momento parava à porta da rua uma carruagem. Era uma comissão de abolicionistas que vinha, de casaca! trazer-lhe respeitosamente o diploma de sócio benemérito. Ele mandou que os conduzissem para a sala de visitas.
Fonte: Aluísio Azevedo. O cortiço. Brasília: Edições Câmara, 2019, p. 233 (com adaptações).
Texto 2 de 2
Graciliano Ramos: Falo somente com o que falo: com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol que as limpa do que não é faca:
de toda uma crosta viscosa, resto de janta abaianada, que fica na lâmina e cega seu gosto da cicatriz clara.
(...)
Falo somente do que falo: do seco e de suas paisagens, Nordestes, debaixo de um sol ali do mais quente vinagre:
que reduz tudo ao espinhaço, cresta o simplesmente folhagem, folha prolixa, folharada, onde possa esconder-se a fraude.
(...)
Falo somente por quem falo: por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol, pelo gavião e outras rapinas:
e onde estão os solos inertes de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar o que é sinônimo da míngua.
(...)
Falo somente para quem falo: quem padece sono de morto e precisa um despertador acre, como o sol sobre o olho:
que é quando o sol é estridente, a contrapelo, imperioso, e bate nas pálpebras como se bate numa porta a socos.
João Cabral de Melo Neto. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 311-312.
“Senti-me bastante perturbada com a necessidade de
passar para o papel aquilo que algumas pessoas que ‘habitavam’
a minha cabeça estavam querendo dizer-me. Então perguntei ao
Paim (o marido) se aquilo daria mesmo um conto, ou quem sabe
um romance. Ele apenas aconselhou-me a dar corpo ao texto,
mesmo que não fosse um romance.” Alina passou a escrever à
noite enquanto o marido dormia, pois não queria que lesse
absolutamente nada. Cinco meses depois de tê-lo concluído,
tratou de ir à confeitaria Colombo, em Copacabana; em uma
dessas oportunidades, deparou-se com Graciliano Ramos, a quem
confiou o manuscrito de Estrada da liberdade; porém, sua única
exigência era que ele dissesse se o que produziu era mesmo um
romance. Acertaram um reencontro para 15 dias mais tarde. Qual
foi sua surpresa ao ouvi-lo dizer: “Alina, é um romance, sim, e
dos bons, porém falta-lhe aprimorar a técnica.” Segundo a
romancista, naquele momento nasceu uma grande amizade entre
ambos, capaz de despertar ciúmes não apenas no mundo literário,
mas em alguns familiares e amigos. Iniciaram-se as aulas de
técnicas literárias na casa de Graciliano, de modo que ele se
tornou responsável pela correção e leitura dos seus dois romances
seguintes. Sua amizade, com aquele a quem chamou
carinhosamente de “Mestre Graça”, rompeu-se nove anos mais
tarde, por ocasião de sua morte.
Ana Maria Leal Cardoso. Alina Paim: uma romancista esquecida nos labirintos do tempo. In: Aletria,
maio-ago 2010, n. 2, v. 20, p.126-127 (com adaptações).
Poucas vezes terá visto o romance brasileiro uma estreia
tão segura de si quanto a de Francisco J. C. Dantas. O precedente,
ilustre, que logo acode a lembrança é obviamente o de
Graciliano Ramos com Caetés (1933). Tal como o ex-prefeito de
Palmeira dos Índios que se apresentou escritor já feito aos olhos
de seus primeiros leitores, este sergipano professor de Letras que,
além de ter cumprido a penitência de duas teses universitárias, só
publicara até agora contos e ensaios esparsos, é dono de uma
linguagem vigorosa, pessoal, rara de encontrar-se num romance
de estreia. Coivara da memória é outrossim, como Caetés, um
romance meio fora de moda. Melhor dizendo: providencialmente
fora de moda.
José Paulo Paes. No rescaldo do fogo morto: sobre a “Coivara da Memória”
de Francisco Dantas. In: Transleituras. São Paulo, Ática, 1995, p.46.
Julgue os itens a seguir, referentes à leitura dos fragmentos de
texto apresentados e ao contexto literário de sua produção.
O poema de João Cabral de Melo Neto e os textos de Ana Maria Leal Cardoso e José Paulo Paes evidenciam que a relevância de Graciliano Ramos, escritor modernista avesso ao primeiro modernismo, circunscreve-se ao regionalismo nordestino, que caracteriza as obras de João Cabral, Alina Paim e Francisco Dantas.